À Conversa com…Teresa Vieira

Teresa Vieira

No passado dia 12 de dezembro, no âmbito do ciclo de seminários temáticos da direção da SPM, realizou-se no CENTIMFE, Marinha Grande, um seminário subordinado ao tema “INDUSTRY & SURFACE ENGINEERING”.  Aproveitámos a ocasião para entrevistar a Profª Teresa Vieira, uma das organizadoras.

Em 1974, iniciou a sua carreira de docente no ensino superior na Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e é nesta instituição que tem vindo a desenvolver a sua actividade profissional. Desde 2001, ocupa o lugar de Professora Catedrática no Departamento de Engenharia Mecânica. Ao longo dos 40 anos de carreira, são muitos os seus contributos em prol da promoção da Ciência e Engenharia de Materiais,  quer nas vertentes académicas de ensino, investigação, actividades de extensão universitária e forte ligação ao tecido industrial.

Como acha que está a engenharia e o desenvolvimento da ciência em Portugal?

A Engenharia e a Ciência em Portugal evoluíram de forma excecional nos últimos 30 anos, quer na formação e investigação, quer pela quantidade do trabalho que se tem vindo a realizar na investigação em particular na área de engenharia.

Isto não significa que esteja despreocupada, porque existe um novo paradigma, que se iniciou com a nova revolução industrial que vivemos, colocando-se vários problemas, entre eles a alteração do modo de funcionamento entre a investigação e indústria, designadamente pela necessidade de seguir novos códigos, industria 4.0 e, mais recentemente, indústria 5.0.

Tem dedicado muito da sua investigação e desenvolvimento à área dos revestimentos; do seu ponto de vista qual a importância da área para o tecido industrial nacional?

A importância da área é reconhecia no tecido industrial nacional e internacional, e pode ser constatada pelo número de citações e por quem nos cita, nomeadamente na área dos revestimentos não convencionais que é, precisamente, a minha área de I&D. Existe um enorme interesse por parte da China e Japão o que nos leva a crer que o interesse não é apenas nacional. A nível nacional existe de facto uma mudança na forma como são atualmente considerados os revestimentos, encarando-os com grande naturalidade.

Neste momento com a indústria 4.0 e com a utilização de pós como matéria prima em novas peças, componentes, dispositivos, é cada vez mais importante o tratamento da superfície porque é nesta que se desenvolve todo o processo, quer seja de conformação quer seja de propriedade final.

 Esteve também na origem do projeto de extensão universitária na área dos materiais, chamado Materialmente e no âmbito do programa Ciência Viva, que almejou a divulgação da área de materiais junto da sociedade civil. Na sua opinião quais são efetivamente as ações que considera terem mais impacto junto da comunidade?

Sim, o programa que nos apoiou foi o Ciência Viva, e neste âmbito foi criado o Materialmente (Mente de pensar e mente de mentir); contextualizando, este programa ocorreu antes de processo Bolonha e abrangia as universidades que tinham à época licenciatura em Engenharia de Materiais.

Permitiu em todo o país, aos jovens pré universitários e universitários desta área, “olharem” para os materiais de forma diferente. Antes, o material estava lá, mas a maior parte das pessoas não o via, a partir do Materialmente, na minha opinião, começou-se a dar a importância que os Materiais realmente têm. Sem materiais estamos num Mundo imaterial, e o mundo imaterial não vive sem os Materiais.

Foi, sem dúvida, um projeto fantástico para uma a duas gerações que estavam mais desprevenidas em relação aos Materiais.

Alguma vez sentiu que o seu trabalho não foi devidamente valorizado pelo facto de ser mulher?

No inicio, quando comecei nos anos 70 / 80, senti algumas manifestações nesse sentido. Fui preterida em relação a pessoas com uma classificação inferior à minha em determinados lugares públicos; em França, onde fiz o doutoramento, senti o mesmo, até de forma mais gravosa. Neste momento penso que existe uma alteração de conceitos e existe até legislação sobre esta temática.

Nunca fui vitima; senti-me pressionada, apesar de sempre ter tido a capacidade de ultrapassar esse problema. Posso dar um exemplo, eramos 7 mulheres no curso de Engenharia Metalúrgica, só eu é que sobrevivi, acabaram todas a lecionar no ensino secundário e não na área na qual estudaram, ou seja, serem engenheiras. Recordo-me ainda que havia uma lei, que impedia mulheres de ingressarem no curso de engenharia de minas.

Como acha que a área da ciência e tecnologia dos Materiais está a ser tratada em termos de estratégia política e económica nacional?

 Mal, já esteve bem melhor. A minha opinião pessoal é que se está a fechar um ciclo. Nos anos 70 evolui-se imenso, e neste momento está-se a tornar uma área despercebida. Desde o desaparecimento de departamentos de materiais, como é o exemplo do Instituto Superior Técnico, até à sua diluição em outros saberes e outras comissões, em que os materiais aparecem como um aspecto secundário, embora, na verdade, se esteja a falar de materiais. Parece que há um retrocesso e não um avanço.

Que papel deve ter, na sua opinião, a SPM neste âmbito?

A SPM tem o papel de garantir que Materiais não perdem a sua identidade e acho que o tem feito, mas este papel deve ser também do poder político, que tem de através de apoios e novos desafios impulsionar a área.

A SPM tem tido um papel muito forte desde os anos 80, mas a verdade é que sozinha não irá longe, como qualquer instituição.

 

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