Artista norte-americana tem nova obra feita com cortiça portuguesa

Até 5 de Abril de 2020, esta fonte com 13 metros de altura (a intervenção de Kara Walker é um dos raros site-specific encomendados pela Tate Modern nos últimos anos que efectivamente tira partido do enorme pé-direito deste espaço nobre de um dos museus de arte contemporânea mais importantes da Europa) vai, espera a artista, pôr os visitantes a pensarem e a falarem nas vítimas da ordem colonial, no lado negro dos impérios e no tráfico de seres humanos, cujas consequências ainda hoje se fazem sentir.

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Nesta instalação, há tubarões em vez de golfinhos, sereias ou tritões; um rapaz com óculos de mergulho e snorkel que nada apesar das ameaças óbvias; um homem negro num pequeno bote; uma corda suspensa do ramo de uma árvore a sugerir uma forca.

Criar Fons Americanus não foi um processo fácil e exigiu desenhos atrás de desenhos. A artista reconheceu ter-se sentido muito pressionada pelo tempo e pelo facto de estar a trabalhar para um espaço singular num museu de grande prestígio e visibilidade. A dada altura optou por fazer em gesso as figuras que viriam a aparecer na fonte. Estas esculturas foram depois replicadas por um robô a partir de grandes blocos de cortiça portuguesa — Walker queria um material sustentável —, recorrendo a um programa de modelação digital usado pela indústria para reduzir tempo e custos de fabrico. Depois de criada em cortiça, a fonte foi coberta por uma substância que misturava gesso e resina e em que era possível reproduzir as marcas de estilete que constavam dos modelos saídos das mãos da artista.

A Tate Modern ganhou uma fonte desconcertante que fala de impérios e de escravatura

Kara Walker, 49 anos, nasceu na Califórnia, mudou-se para Atlanta aos 13 anos e fez a sua formação na Escola de Design de Rhode Island. O seu nome passou a ser conhecido nos anos 1990 graças às silhuetas em que colocava brancos e negros em situações que encenam de forma clara e por vezes perturbadora as relações de poder entre uns e outros e, através delas, o preconceito, o racismo. Embora o seu trabalho inclua também desenho e escultura — uma das suas obras de maior notoriedade é A Subtlety, or the Marvelous Sugar Baby, uma gigantesca esfinge de uma mulher negra que homenageia todos aqueles que estiveram envolvidos na produção do açúcar, desde os escravos das grandes plantações de cana aos operários que o processavam em fábricas como aquela de Brooklyn, desactivada, em que instalou a peça —, são estas silhuetas a sua imagem de marca.

In Ípsilon, 2 de outubro de 2019

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