Portugal é o país do mundo com maior percentagem de mulheres em cursos de ciências

Há mais de 10 anos que o número de mulheres doutoradas é superior ao dos homens e há quase três décadas que se contam mais licenciadas do que
licenciados. No total, continua a haver mais homens na ciência, mas as mulheres estão em maioria nos laboratórios do Estado, ocupam metade dos
lugares de investigação nas instituições de ensino superior e superam o número de homens investigadores em cinco das sete grandes áreas científicas.

Portugal está acima da média europeia em todos estes indicadores e é um dos países onde a paridade na ciência está mais próxima de ser garantida. Ainda assim, há desigualdades que persistem, nomeadamente no acesso aos cargos de topo. 

“São poucas as áreas de ensino superior em que as mulheres hoje não estão em maioria. É essa posição das raparigas nas universidades e o aumento
de diplomadas que alimenta as entradas na carreira de investigação”, explica Helena Pereira, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).
A verdade é que no que respeita a resultados escolares o melhor desempenho feminino começa a evidenciar-se desde cedo. Elas chumbam menos (no 9º ano a taxa de retenção é de 9%, contra 14% entre os rapazes), têm, em média, notas mais altas nos exames e nas classificações internas e estudam durante mais anos. Em 2018, 15% dos rapazes entre os 18 e os 24 anos tinham deixado a escola antes de completar o secundário. Entre as raparigas o valor do chamado abandono escolar precoce não chegou aos 9%. Os melhores resultados refletem-se agora na carreira científica “Estes bons dados de equilíbrio de género acompanharam o grande crescimento do nosso sistema científico, que nos anos 70 era mínimo”, explica Helena Pereira, que dirige desde há um ano o organismo que avalia e financia atividades de investigação científica no país. Portugal é hoje o segundo país
da União Europeia (UE) com mais investigadoras a trabalhar no Estado (60%), bem acima da média (43%) e só ultrapassado pela Estónia, segundo o relatório “She Figures 2018”, da Comissão Europeia. Portugal é também um dos únicos seis países da UE onde a percentagem de pessoas que seguem a carreira da ciência ou de engenharia é maior na população feminina do que na masculina. Segundo o Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional de 2018 (IPCTN), dos 96 mil investigadores em Portugal, 43% são mulheres. Ainda assim, estão em maioria nas áreas das ciências naturais, médicas, agrárias e veterinárias, sociais e também nas humanidades e artes. Só nas ciências exatas (35%) e nas engenharias e tecnologias (27%) ficam abaixo. Mas até esse panorama deverá estar prestes a mudar, uma vez que Portugal é o país da OCDE com a maior percentagem de alunas a estudar ciências, matemática e computação (57%). É o dobro do Japão (25%) e bem mais do que na Noruega (33%), Dinamarca (36%), Alemanha (38%) ou Finlândia (42%), por exemplo.

“Há áreas que continuam a atrair maioritariamente mulheres, como a saúde. Nas engenharias continua a haver mais homens e esse desequilíbrio
também é visível nos cargos de chefia, resultado de uma tradição de domínio dos homens na carreira científica”, diz Helena Canhão, professora e investigadora da Nova Medical School, que foi recentemente nomeada pelo ministro do Ensino Superior como comissária do Encontro Ciência 2020, agendado para junho. Sobre a desigualdade no topo, ainda que Portugal tenha bons indicadores em termos de presença feminina em áreas científicas, há muito caminho ainda por fazer. “O problema não está na quantidade de mulheres ativas na ciência, mas no número das que ocupam cargos de chefia ou chegam ao topo. Felizmente, temos sinais positivos a nível nacional.

A Fundação Champalimaud (Leonor Beleza), o Instituto Gulbenkian de Ciência (Mónica Bettencourt–Dias) e a própria Fundação Calouste Gulbenkian (Isabel Mota), a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (Rita Faden) e a Fundação para a Ciência e Tecnologia (Helena Pereira) são presididas atualmente por mulheres”, lembra a cientista Elvira Fortunato, presidente do Instituto de Nanomateriais, Nanofabricação e Nanomodelagem e vice-reitora da Universidade Nova de
Lisboa.  O problema, defende, é que continuam a faltar políticas públicas que facilitem a conciliação entre a vida familiar e a carreira profissional, levando muitas vezes as mulheres a fazer opções e a excluir oportunidades. A cientista dedicada à eletrónica transparente, e que já foi condecorada com a Ordem do Infante D. Henrique, diz nunca ter sentido discriminação na atribuição de projetos ou na seleção de equipas. Até porque os concursos se regem por dados “objetivos e transparentes”, como o currículo científico ou o número de artigos, sem se “olhar ao género”. Portugal perde vantagem devido ao desequilíbrio nos cargos de liderança, tanto na carreira de investigação como de docente universitário. Apenas 30% dos líderes de instituições de ensino superior e 26% dos professores catedráticos e investigadores no topo da carreira são mulheres. E ainda que essas percentagens estejam acima da média europeia, estão muito distantes de um acesso pleno. “Os números são bons nas camadas jovens, mas os lugares cimeiros têm maioritariamente homens, porque aí ainda há o peso do passado. Estou em crer que no futuro próximo deixará de ser assim”, defende a presidente da FCT. “Há países onde a igualdade de género até é, no geral, superior à nossa, mas que apresentam participações das mulheres na ciência muito piores. Vemos isso nos júris de avaliação, que até há pouco tempo eram sobretudo compostos por homens. Fizemos um esforço para inverter essa situação e a nível nacional já conseguimos, mas se tiverem de ser internacionais é-nos muito mais difícil encontrar especialistas disponíveis.” A desigualdade na participação feminina na ciência vê-se também entre o sector público e privado: só 28% dos investigadores nas empresas são mulheres. “Nos concursos públicos não há discriminação possível. Mas para os cargos ocupados por escolha de alguém, o enviesamento que existe na sociedade pode refletir-se. Tal como ainda acontece em cargos de gestão de topo na Administração Pública, direções de comités, comissões e outras nomeações de altos responsáveis, que normalmente são homens”, lamenta a presidente da FCT.

~In Expresso, 08.02.2020, Isabel Leiria e Raquel Albuquerque