Já disponível, Revista “Ciência & Tecnologia dos Materiais”

PLÁSTICOS E A SUSTENTABILIDADE

Este número da Revista “Ciência & Tecnologia dos Materiais” da SPM é dedicado ao tema “Plásticos e a Sustentabilidade”. Uma das principais missões da SPM é a disseminação de conhecimento de índole científico que promova um debate sério e o mais esclarecido possível sobre as diversas temáticas associadas à utilização dos materiais. Independentemente da perspetiva que cada pessoa tenha sobre um determinado assunto, é decisivo que essa opinião seja baseada em informação rigorosa.

Recentemente, tem-se assistido a um ataque sem precedentes à utilização dos plásticos. Na grande maioria das situações, a discussão é fundamentalmente emocional, como se de uma guerra entre heróis e vilões se tratasse. A existência atual de uma cultura de facilitismo, superficialidade e sensacionalismo, catalisada num mundo de redes sociais onde tudo se pode disseminar, sem qualquer escrutínio, à velocidade de um simples click, tem conduzido inevitavelmente a enormes campanhas de desinformação, pouco ou nada sustentadas em conhecimento científico. Os plásticos têm, desde há várias décadas, contribuído indiscutivelmente para o desenvolvimento da humanidade e para uma melhoria assinalável da qualidade de vida das sociedades. Curiosamente, e ironicamente, uma das grandes motivações históricas para o desenvolvimento de plásticos foi precisamente a questão ambiental. Há várias décadas, foi imperioso criar materiais alternativos aos metais e madeira, que permitissem o desejado desenvolvimento económico. Pela sua notável relação de desempenho/ densidade, associado a um custo muito reduzido, os plásticos adquiriram uma posição de destaque em praticamente todos os utensílios que nos rodeiam no nosso quotidiano. É absolutamente consensual que em áreas como a saúde, transportes (através de materiais mais leves), construção (isolamentos mais eficientes), embalagem alimentar, entre outras, os plásticos foram decisivos para o nível desenvolvimento que a nossa sociedade moderna conseguiu atingir. Por exemplo, na área da embalagem, uma das principais aplicações dos plásticos, são indiscutíveis os progressos ao nível da segurança alimentar, tempo de vida útil dos produtos, com todos os benefícios que daí advém. No entanto, e como em tudo o que nos rodeia, aos plásticos não estão associadas só vantagens, e recentemente, surgiram na ordem do dia preocupações legítimas associadas à poluição resultante da utilização indiscriminada dos plásticos. Imagens impactantes de “ilhas de plástico” no Pacífico, animais em agonia, ecossistemas em destruição contínua, não podem e não devem deixar qualquer cidadão responsável indiferente. Uma questão interessante, diria quase filosófica, seria questionarmo-nos se a culpa da presença de plástico nos ecossistemas naturais é do plástico em si, que cumpriu a função para qual foi produzido, ou da forma como a nossa sociedade está preparada (ou não!) para lidar com os materiais no seu fim de vida útil. Será que atualmente existe algum outro material que cumpra o mesmo propósito, mas de forma globalmente mais ecológica? Na maioria dos casos, o conhecimento científico diz-nos que não, e esse também é um dos grandes problemas. Mas, afinal que alternativas existem? Um dos exemplos mais paradigmáticos consiste na simples comparação entre a utilização de um saco de plástico e de um saco de algodão. Por instinto natural, qualquer pessoa seria levada a optar de imediato pelo saco de algodão, contudo, os estudos científicos de análise da sustentabilidade das duas opções demonstram precisamente o contrário. A questão central é, portanto, como garantir um desenvolvimento sustentável que abranja toda a população do nosso planeta? Sim, porque todos nós somos iguais e temos o direito a ambicionar a mesma qualidade vida independentemente da localização geográfica onde nascemos. Este problema tornar-se-á ainda mais crítico num futuro próximo tendo em conta o fato do crescimento populacional à escala global ser claramente assimétrico, existindo zonas onde os países emergentes irão contribuir decisivamente para novos padrões de consumo. Num período bastante reduzido de tempo, centenas de milhões de novos consumidores terão acesso a bens de consumo produzidos com o recurso a plásticos, situação que até há poucos anos era inimaginável. A pressão sobre o desenvolvimento sustentável que já é enorme, tornar-se-á ainda maior. Este problema, com que todos nós, habitantes do mesmo planeta nos deparamos, é altamente complexo e jamais se resolverá com visões simplistas, demagógicas, irrealistas, e que frequentemente se baseiam em ideias pré-concebidas Já hoje se assiste ao aparecimento de soluções alternativas aos plásticos (ex. substituição de copos de café de plástico por copos de papel) sem qualquer estudo científico que comprove a melhoria em termos ambientais de tal substituição. Estas soluções são também altamente perversas porque a médio/longo prazo serão mais nocivas para o ambiente do que as soluções atuais. Apenas conseguiremos encontrar uma boa solução de compromisso entre o desenvolvimento da sociedade e sustentabilidade ambiental adotando uma visão integrada, complementar, realista, em que cada alteração introduzida no sistema seja devidamente sustentada por conhecimento científico, nomeadamente com o recurso à análise do ciclo de vida. Enquanto sociedade teremos provavelmente de adotar políticas que favoreçam novos modelos de negócios, os quais devem premiar financeiramente as boas práticas, nomeadamente através da separação, recolha e entrega dos resíduos plásticos bem como da capacidade de reciclagem do material. Pela enorme complexidade deste tema, a abordagem terá de ser forçosamente multidisciplinar. Nesse sentido, na qualidade de editor convidado deste número da revista, tive o privilégio de reunir um conjunto de individualidades de mérito reconhecido nas suas áreas, as quais se relacionam com esta temática. Ao longo dos diversos artigos publicados serão discutidos aspetos centrais para o entendimento da temática em causa, e as suas perspetivas futuras, tais como: identificação do problema e suas origens, discussão de mitos e ideias pré-concebidas, enquadramento legal e economia circular, recolha de resíduos e reciclagem, importância da análise do ciclo de vida, o papel dos biopolímeros, perspetivas futuras ao nível científico e industrial, e três casos de estudos de empresas portuguesas que descrevem como se estão a adaptar às novas exigências. Todos temos algo a contribuir, ninguém pode ficar de fora! Quando há um plástico que aparece no oceano ou fora do local onde é suposto ser colocado, somos todos nós, enquanto sociedade, que falhámos. Citando uma frase célebre de J.F Kennedy “ask not what your country can do for you, ask what you can do for your country”, também neste domínio cada um de nós pode fazer muito: mudar hábitos de consumo, reduzir o consumo, desincentivar a cultura do desperdício (um dos principais problemas associados à utilização de plásticos biodegradáveis), dar o seu contributo nas várias vertentes que permitem tornar a economia circular uma realidade, e promover uma cultura de educação e rigor sobre este assunto.

Editor Convidado: Jorge Coelho, Professor Catedrático do DEQ/FCTUC, Responsável da Divisão de Polímeros e Compósitos da SPM