Revista “Ciência & Tecnologia dos Materiais”, 2021 VOL.33 Nº1

PAPEL & INOVAÇÃO

Já está disponível para leitura o último número da revista “Ciência & Tecnologia dos Materiais” aqui

EDITORIAL
OS DESAFIOS DO PAPEL

A “Ciência e Tecnologia dos Materiais” dedica este número a um material de origem natural – o papel, dando continuidade a uma série de números da revista focados em classes de materiais com grande relevância no tecido industrial português. No caso concreto da pasta e papel, estamos a falar de uma indústria com um peso muito relevante no PIB nacional, mas que enfrenta grandes desafios conjunturais relacionados com a redução da utilização do papel como suporte físico para armazenamento de informação. Mais recentemente, começou também a ser questionada a sustentabilidade da indústria da pasta e papel, usando como argumentos os elevados consumos de água e energia requeridos para a transformação da madeira em pasta de papel. Alguns incidentes ambientais, bem como toda a discussão em torno da temática das plantações de eucalipto e organização da floresta portuguesa, alavancaram a discussão, levantando dúvidas na opinião pública, talvez inesperadas, em torno de um material “milenar”, de origem natural, e com um ciclo de reciclagem extremamente eficiente.

Perante este cenário, importa dissertar sobre o futuro do papel numa sociedade moderna, onde a digitalização e
sustentabilidade marcarão a agenda nos próximos anos. O crescimento do consumo de papel tissue pode compensar
a redução no consumo do papel de escrita/impressão, mas será talvez redutor pensar que será essa a grande aplicação
da celulose e do papel no futuro da nossa sociedade. É evidente que, a nível mundial, as empresas produtoras de pasta e papel há muito interiorizaram este desafio, sendo imperativo não permitir o enraizar da ideia, que nestas indústrias tradicionais não há espaço para novos avanços científicos e que tudo é já conhecido. São vários os exemplos de universidades e institutos nos países nórdicos, Canadá, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, China, e Brasil com trabalhos de grande relevância no desenvolvimento de novas aplicações para a materiais lignocelulósicos e papel, em
muitos casos com grande envolvimento do sector industrial. Têm sido demonstradas múltiplas aplicações para a celulose como um polímero multifuncional, em áreas tão diversas que vão desde a engenharia de tecidos a sistemas electrónicos, passando por compósitos, fibras para a indústria têxtil e novas funcionalidades no campo da embalagem. Existem, inclusive, iniciativas em alguns países como são os desafios no âmbito da National Nanotechnology Initiative (NNI) nos Estados Unidos, ou os casos concretos da FPInnovations no Canada e o FinnCERES na Finlândia, que são
exemplos na optimização de todo o esforço de desenvolvimento de novas aplicações para materiais lignocelulósicos, quer como matéria-prima ou na sua integração em produtos concretos. Estas iniciativas permitem a necessária cooperação, partilha de recursos e informação, possibilitando, simultaneamente, uma melhor articulação e efectividade de todo o investimento público e privado. É certo que, só por si, a utilização de celulose não garante a sustentabilidade
de um produto, sendo necessária uma análise objectiva das vantagens em termos de custo, desempenho e seu ciclo de vida. Mas é irrefutável que os potenciais benefícios da utilização de celulose e outros materiais de origem natural em tecnologias inovadoras são de grande relevância para atingir o objectivo nobre e indispensável da sustentabilidade, em benefício da humanidade.

Sendo a indústria do celulose e papel em Portugal uma das com maior peso no PIB, com empresas de dimensão mundial, é importante não perder este comboio na procura de novas aplicações para materiais lignocelulósicos e papel. As empresas e universidades nacionais têm também feito trabalho de grande relevo nessa “demanda”, e alguns exemplos são dados a conhecer neste número da “Ciência e Tecnologia de Materiais”. Porém, sendo nós um país de pequena dimensão e com recursos limitados não podemos deixar de olhar para os exemplos anteriormente mencionados e assumir a importância de congregar, de forma mais efectiva, empresas, institutos, e universidades em
torno deste sector de grande relevância para Portugal. Os recém-criados Laboratórios Colaborativos – CoLabs, em que estes três “stakeholders” se juntam num conceito de partilha de risco, podem representar mais uma oportunidade para estabelecer novas colaborações, e consolidar as já existentes, focando na inovação, criação de novos mercados, empresas e emprego.
Damos a conhecer CoLabs, o ForestWise e o Almascience, ligados à gestão e valorização da floresta e novas aplicações
na área da electrónica para a celulose, respetivamente. Os CoLabs podem ser um bom tubo de ensaio para uma colaboração mais abrangente e heterogénea em torno de determinadas áreas do conhecimento e sectores industriais, cujo sucesso poderá demonstrar a efectividade de implementar em Portugal iniciativas como as referidas anteriormente. Válido também para outros sectores, será necessária, talvez, a mudança de mentalidades, enterrar
alguns machados, evitar clubes “privados”, agregar em vez dispersar. Temos nas nossas mãos todas as ferramentas para, de uma forma concertada, conseguir atrair mais investimento e captar mais fundos para a investigação e inovação neste sector, que passa também por criação de instalações piloto para produção a pequena escala
de materiais e aplicações diferenciadas baseadas em materiais lignocelulósicos.
Será determinante, obviamente, não esquecer os ventos favoráveis que sopram da Europa considerando o enquadramento europeu no âmbito do Green Deal, bem como a famosa “bazuca”, a concretizar através do Plano de Recuperação e Resiliência – PRR.
Este número da “Ciência e Tecnologia dos Materiais” pretende dar a conhecer a relevância da indústria da celulose e papel em Portugal, bem como algumas inovações nesta área, tanto a nível académico como também industrial. O nosso agradecimento a todos os que ajudaram a elaborar este número da revista. Seria impossível incluir o contributo de todos e gostaríamos de pedir desculpa a quem não enviámos o convite para participar. Gostaríamos também de agradecer a quem tendo sido convidado a dar o seu contributo, por uma ou outra razão, optou por declinar o convite. Em ambos os casos, esperamos que possam considerar a contribuição para futuros números da revista. Tendo por base
a missão da Sociedade Portuguesa de Materiais – SPM, que assenta num espírito integrador e inclusivo, gostaríamos de poder contar com todos os queiram juntarse às nossas iniciativas em promover o que se faz na área dos “Materiais” em Portugal.


LUIS PEREIRA
EDITOR CONVIDADO
Director Técnico-Cientifico, AlmaScience CoLab
Professor Associado NOVA School of Science and
Technology, FCT-NOVA
luis.pereira@almascience.pt
Responsável da Divisão de Materiais Funcionais da SPM